terça-feira, 17 de junho de 2014

Os óculos e o plural da língua...

Olá, caríssimos amigos.

O assunto desta postagem resume-se na palavra “ÓCULOS”. Sim, é isso mesmo!
Vocês já ouviram dizer que, segundo os padrões mais tradicionais da Língua Portuguesa, o termo “óculos” é uma palavra no plural? Por essa razão, devemos falar/escrever:

Os meus óculos novos são maravilhosos.
Perdi os meus óculos.
Os óculos do Pedro ficaram dentro do carro.

Isso tudo parece muito estranho? A explicação para o fato remete a um fenômeno morfológico designado “PLURALIA TANTUM”. Segundo o dicionário Houaiss, “‘pluralia tantum’ é uma expressão latina com que são referidos os substantivos de uma língua cuja forma é um plural morfológico, mas que semanticamente podem denotar uma única unidade”. Resumidamente, pessoal, a expressão latina ‘pluralia tantum’ significa “apenas plurais”. Na Língua Portuguesa, existe uma série de substantivos que somente ocorrem no plural, como núpcias, férias, pêsames, parabéns, ÓCULOS, etc.
Acontece que, em se tratando do USO linguístico, é evidente que as pessoas percebem a palavra “óculos” como um termo no singular, haja vista o fato de a palavra fazer referência a um único objeto. Quando falamos “óculos”, geralmente fazemos menção a uma coisa só, a uma unidade apenas, não é mesmo? Por que, então, precisamos utilizar o plural?
De acordo com as normas da Gramática Tradicional, o termo “óculos” faz referência, na verdade, a UM PAR DE LENTES. Dessa forma, temos um objeto constituído de duas partes simetricamente duplicadas. Seguindo esse raciocínio, podemos enquadrar, também, as palavras “calças”, “cuecas” e “tesouras”. É isso mesmo! Na realidade, gente, esses termos todos que eu mencionei também integram o grupo do "PLURALIA TANTUM". A frequência de uso de tais palavras no SINGULAR, entretanto, já fez com que a forma plural fosse quase esquecida pelos falantes. Reparem, contudo, que é mais complicado dizer “óculo” em vez de “óculos”; até mesmo porque, se assim fizermos, vamos mudar o sentido da palavra, já que “óculo” (sem a marcação do “-s”) significa LUNETA, e não aquele nosso velho conhecido usado para nos auxiliar na leitura.
Pessoal, outra coisa que eu gostaria de destacar é a seguinte: o termo “óculos” é uma forma no plural não apenas por terminar em “-s”, mas principalmente por pertencer ao mencionado grupo do “PLURALIA TANTUM”. Se todas as palavras terminadas em “-s” estivessem no plural, não poderíamos dizer “O ÔNIBUS” e “O LÁPIS”, não é? Ah! “Ônibus” e “lápis” são palavras cujo número (singular/plural) somente pode ser definido pelos seus determinantes (artigos, adjetivos, etc.), uma vez que a palavra em si permanece a mesma nos dois casos (o ônibus / os ônibus).

Para finalizar, aconselho todos a saberem que a palavra "óculos" está no plural e que, por isso mesmo, precisamos dizer/escrever "OS MEUS ÓCULOS SÃO GRANDES" caso alguém resolva avaliar o nosso nível gramatical (provas de concursos e de vestibulares, por exemplo). Se estivermos em uma situação informal, todavia, não vejo problema em utilizar o termo no singular; afinal, estamos falando de um único objeto. A língua é assim mesmo: está em constante movimento e em frequente mudança. Penso que chegará o dia em que o termo "óculos" somente será utilizado no singular. Quem sabe?

UMA CURIOSIDADE: em inglês, a palavra “óculos” (GLASSES) também é escrita no plural, minha gente! Também o são os termos “tesouras” (SCISSORS) e “calças” (TROUSERS ou PANTS).

Abraços. Até a próxima!


quinta-feira, 12 de junho de 2014

"EM VEZ DE" ou "AO INVÉS DE"? E agora?

Olá, galera! Tudo bem? Espero que sim.

Nesta postagem, vamos saber quando empregar – segundo os padrões da língua culta – “ao invés de” e “em vez de”. Vocês acham que tais expressões são sinônimas e podem sempre ser trocadas, sem prejuízo de sentido? Devo dizer-lhes que “DEPENDE”. 


  • “Ao invés de” deve ser utilizado SOMENTE para marcar OPOSIÇÃO entre duas situações, uma vez que o termo “invés” significa inverso, oposto. Dessa forma, podemos afirmar que a expressão “ao invés de” equivale à perífrase “ao contrário de”.

  • “Em vez de”, por seu turno, deve ser usado com o sentido de SUBSTITUIÇÃO (= “em lugar de”) e, também, com a noção de OPOSIÇÃO. Consequentemente, podemos concluir que, quando quisermos expressar oposição, teremos a opção de utilizar “ao invés de” ou “em vez de”, mas, se quisermos expressar somente a noção de SUBSTITUIÇÃO, teremos de optar pelo uso de “em vez de”.

Esquematicamente,
 IDEIA DE OPOSIÇÃO: 
As duas expressões podem ser usadas, mas é mais aconselhado o emprego de “ao invés de”.
Ex.:
Marina, ao invés de RIR da situação, CAIU NO CHORO.
=
Gabriela, em vez de RIR da situação, CAIU NO CHORO.

IDEIA DE SUBSTITUIÇÃO: 
Apenas “EM VEZ DE” (não tem jeito!).
Ex.:
“Em vez de fazer compras para a mãe, preferiu continuar jogando futebol.”
Percebam que fazer compras para a mãe e jogar futebol NÃO SÃO ideias contrárias e realmente opostas, né?


Gostaram? Simples!
Aproveito para desejar-lhes um FELIZ DIA DOS NAMORADOS e uma ótima abertura da COPA DO MUNDO. Beijem muito. 
Que o dia de hoje seja doce!

Até a próxima!

quinta-feira, 5 de junho de 2014

"ANGÚSTIA": um conto russo

Olá, pessoal. Tudo bom?

Trago-lhes hoje um belíssimo conto escrito por Anton Tchekhov (1860-1904), um dos maiores novelistas russos de todos os tempos. O texto abaixo destaca a solidão e a angústia de um homem que precisa desabafar sobre a morte recente do filho, mas que não encontra nenhuma pessoa que o queira ouvir. História triste, melancólica, angustiante, mas muito realista. Com toda a certeza, vale a pena conferir a leitura deste clássico. Se você ainda não leu nenhum conto russo, aqui está uma excelente oportunidade de iniciar os trabalhos...
Até a próxima!

---*---

ANGÚSTIA


“Com quem a dor partilharei?...”
Anton Tchekhov

Anoitece. A neve graúda e úmida gira preguiçosamente ao redor dos lampiões recém-acesos e deita-se em placas ma­cias e finas nos telhados, nos lombos dos cavalos, nos om­bros, nos gorros. O cocheiro Iona Potápov está todo branco, como um fantasma. Está sentado na boleia, curvado, tão curvado quanto é possível curvar-se um corpo vivo, e não se mexe. Se toda uma avalancha se despencasse sobre ele, nem assim, ao que parece, ele acharia necessário sacudir a neve... A sua eguazinha também está branca e imóvel. Pela sua imobilidade, suas formas angulosas e as pernas retas como paus, até de perto ela parece um cavalinho de pão de mel de um copeque. Ao que tudo indica, ela está mergu­lhada em meditações. Quem foi arrancado do arado, das costumeiras paisagens cinzentas, e atirado aqui, neste atoleiro, cheio de luzes monstruosas, zoeira incessante e gente apressada, esse não pode deixar de meditar...
Iona e a sua eguazinha não se movem do lugar já faz muito tempo. Saíram do pátio ainda antes do almoço, porém não fizeram nem uma corrida. Mas eis que a sombra da noite desce sobre a cidade. A luz pálida dos lampiões cede lugar à cor viva e o bulício das ruas torna-se mais ruidoso.
— Cocheiro, para a Viborgskaia! — ouve Iona. — Cocheiro!
Iona estremece e, através dos cílios grudados pela neve, vê um militar de capote e capuz.
— Para Viborgskaia! — repete o militar. — Mas tu estás dormindo, hein? Para Viborgskaia!
Em sinal de assentimento, Iona puxa as rédeas, em consequência do que, placas de neve caem dos seus ombros e do ombro do cavalo. O militar toma assento no trenó. O cocheiro estala os lábios, estica o pescoço à maneira de um cisne, soergue-se e, mais por hábito que por necessidade, brande o chicote. A eguazinha também estica o pescoço, arqueia as pernas magras e, insegura, põe-se em movimento.
— Por onde te metes, lobisomem! — ouve Iona, assim que sai, gritar de dentro da massa escura que balança para diante e para trás. — Aonde te carrega o diabo? Para a direita!
“Não sabes dirigir! Aguenta a direita!”, ralha o militar.
Um cocheiro de carruagem particular pragueja ao cruzar, e um transeunte, que atravessara a rua correndo e batera com o ombro no focinho da égua, olha furioso e sa­code a neve da manga. Iona se contorce na boleia como se estivesse sentado em alfinetes, joga os cotovelos para os lados, e seus olhos correm como possessos, como se não compreendesse quem é e por que está ali.
— Como todos são canalhas! — zomba o militar. — Só procuram abalroar-te ou se jogar debaixo do teu cavalo! É que estão todos de conluio contra ti!
Iona olha para trás, para o passageiro, e move os lá­bios... Vê-se que quer dizer alguma coisa, mas da sua garganta não sai nada, a não ser um som gutural.
— O que é? pergunta o militar.
Iona torce a boca num sorriso, força a garganta e rouqueja:
— É que... patrão... coisa... o meu filho... se finou esta semana.
— Hum!... E de que foi que ele morreu?
Iona volta-se de corpo inteiro para o passageiro e diz:
— E quem sabe lá! Vai ver, foi a febre... Ficou três dias no hospital e se finou... É a vontade de Deus.
— Vira, demônio! — soa na escuridão. — Estás tonto ou o quê, cachorro velho? Toca para a frente!
O cocheiro torna a esticar o pescoço, a soerguer-se, brandindo o chicote com graça pesada. Depois, por várias vezes, ele se volta para o passageiro, mas este fechou os olhos, e pelo visto, não está disposto a escutar. Deixando-o na Viborgskaia, Iona para diante de um botequim, dobra-se na boleia e torna a ficar imóvel... De novo a neve úmida tinge de branco a ele e sua égua. Passa uma hora, outra...
Pelo passeio, pisando, pisando ruidosamente com as ga­lochas e altercando, passam três rapazes: dois deles são altos e magros, o terceiro é baixo e corcunda.
— Cocheiro, para a Ponte Policial! — grita o corcunda com voz de trêmulo. — Nós três — por vinte copeques!
Iona puxa as rédeas e estala os lábios. Vinte copeques não é o preço justo, mas ele não está para pensar em pre­ço... um rublo ou cinco copeques, para ele dá na mesma agora – haja passageiros... Os moços, aos empurrões e palavrões, vêm para o trenó e sobem no assento todos ao mesmo tempo. Começa a discussão do problema: quais os dois que irão sentados, e qual o terceiro que irá de pé? Após longos debates, bate-boca e acusações, eles chegam à decisão de que deve viajar de pé o corcunda, por ser o menor.
— Anda, toca! — range o corcunda, firmando-se e ba­fejando na nuca de Iona. 
— Descansa o cavalo! Mas que gorro o teu, hein, mano! Pior não se acha em toda Peters­burgo!...
— Eh, eh... eh, eh... — gargalha Iona. — É o que é...
— Anda, tu aí, “é o que é”, toca pra frente! É assim que vais andar o caminho inteiro? E que tal um pescoção?
— A cabeça me estala... — diz um dos compridos. Ontem, na casa dos Dukmássov, nós dois, o Vaska e eu, limpamos quatro garrafas de conhaque.
— Não entendo por que mentir! — enfeza o outro comprido.
— Mentes que nem um animal!
— Que Deus me castigue se não é verdade.
— É tão verdade quanto um piolho tossir.
— Eh... eh... — ri Iona. — Que senhores alegres...
— Arre, que os diabos te carreguem!... — indigna-se o corcunda. 
— Vais andar, carcaça velha, ou não? Isso é maneira de dirigir? Chicote nela! Upa, diabo! Upa! Dá-lhe rijo!
Iona sente atrás das costas o corpo irrequieto e a vi­bração da voz do corcunda. Ouve os insultos que lhe são dirigidos, vê a gente, e o aperto da solidão pouco a pouco começa a afrouxar no seu peito. O corcunda continua a imprecar, até que engasga num palavrão de seis andares e desanda a tossir. Os dois compridos põem-se a conversar sobre uma certa Nadejda Petrovna. Iona olha para eles por cima do ombro. Escolhendo um momento propício, volta-se novamente e balbucia:
— E eu nesta semana... coisa... finou-se meu filho!
— Todos vamos nos finar... — suspira o corcunda, enxugando os lábios depois do acesso de tosse.
— Anda, toca, toca! Deus meu, palavra que não aguento mais viajar assim! Quando é que nós vamos chegar?
— Você poderia animá-lo um tiquinho — na nuca!
— Estás ouvindo, traste velho? Vou te encher de pes­coções! Se a gente começa a fazer cerimônia com a tua laia, acaba andando a pé! Estás ouvindo, Dragão Gorinitch? Ou não te importa o que dizemos?
E Iona ouve, mais do que sente, o ruído do pescoção.
— Eh, eh... — ri ele. — Que senhores alegres. Benza-os Deus!
— Cocheiro, és casado? — pergunta um dos com­pridos.
— Eu, é? Eh, eh... Alegres senhores! Eu agora só tenho uma mulher: a terra úmida... Eh, eh... oh, oh... A sepultura, é o que é!... O filho, esse morreu... e eu estou vivo... Coisa esquisita, a morte errou de porta... Em vez de vir me buscar, foi ao filho...
E Iona volta-se para contar como morreu seu filho, mas aí o corcunda suspira aliviado e declara que, graças a Deus, eles já chegaram, finalmente. Tendo recebido os vinte copeques, Iona fica longamente a olhar no encalço dos far­ristas, que desaparecem num portão escuro. Outra vez ele está só, e outra vez o silêncio cai sobre ele... A angústia, que amainara um pouco, surge de novo e oprime-lhe o peito com força maior ainda. Os olhos de Iona correm aflitos e martirizados pelas turbas que se agitam de ambos os lados da rua: não haveria no meio desses milhares de pessoas ao menos uma que quisesse ouvi-lo? Mas as turbas correm sem notá-lo, nem a ele, nem à sua angústia... Angústia enorme, que não conhece limites. Se estourasse o peito de Iona e a angústia se derramasse, ela inundaria, parece, o mundo inteiro — e, no entanto, ela é invisível. Ele conseguiu aninhar-se numa casca tão ínfima, que não se pode enxergá-la nem com lanterna à luz do sol...
Iona vê um zelador de prédio com um saco na mão e decide falar com ele.
— Mano, que horas serão? — pergunta ele.
— Passa das nove... E por que ficas parado aqui? Vai andando!
Iona afasta-se alguns passos, dobra o corpo e entrega-se à angústia... Dirigir-se aos homens ele já considera inútil. Mas não passam nem cinco minutos e ele se endireita, sacode a cabeça como se sentisse uma dor aguda e puxa as rédeas. Ele não aguenta mais.
“Para casa”, pensa ele. “Para casa!”
E a eguazinha, como que adivinhando-lhe o pensamen­to, põe-se a correr a trote miúdo. Cerca de hora e meia de­pois, Iona já está sentado junto a uma estufa grande e suja. Em cima da estufa, nos bancos, no chão, homens estão ron­cando. O ar está denso e abafado... Iona olha para os dorminhocos, coça-se, e lamenta ter voltado para casa tão cedo.
“Não ganhei nem para a aveia”, pensa ele. “É por isso que estou aflito. Um homem que entende do seu trabalho... que está de barriga cheia, assim como o seu cavalo, esse está sempre sossegado...”
Num dos cantos, acorda um cocheiro moço, pigarreia e estende a mão para o balde de água.
— Deu vontade de beber? — pergunta Iona.
— De beber, pelo visto!
— Pois é... Bom proveito.. Pois eu, mano... morreu meu filho... Soube? Esta semana, no hospital... Que história!
Iona olha para ver o efeito que produziram suas pala­vras, mas não vê nada. O moço puxou a coberta por cima da cabeça e já dorme. O velho suspira e se coça. Assim como o moço tinha vontade de beber, ele tem vontade de falar. Logo vai fazer uma semana que o filho morreu, e ele ainda não conversou direito com ninguém... É preciso conversar com vagar, com calma... É preciso contar como o filho ficou doente, como sofreu, o que disse antes de morrer, como morreu. É preciso descrever o enterro e a viagem ao hospi­tal para buscar a roupa do defunto. Na aldeia ficou uma filha, Aníssia... Também dela é preciso falar... Há tanta coisa de que ele poderia falar agora... O ouvinte deve ge­mer, suspirar, compadecer-se... Melhor ainda seria falar com mulheres. Elas podem ser burras, mas põem-se a cho­rar à segunda palavra.
“Vou ver o cavalo”, pensa Iona. “Sempre terei tempo para dormir... Dormirei até que chegue...”
Iona se veste e vai para a cavalariça, onde está a sua égua. Ele pensa na aveia, na palha, no tempo... No filho, quando está sozinho, ele não consegue pensar. Falar com alguém a respeito do filho, isso ele poderia, mas pensar so­zinho e imaginá-lo é para ele insuportável e assustador...
— Mastigas? — pergunta Iona ao seu cavalo, vendo-lhe os olhos brilhantes. – Mastiga, anda, mastiga... Se não ganhamos para a aveia, comeremos palha... Pois é... Já estou velho para este trabalho... O filho é que devia trabalhar, e não eu... Aquele sim é que era cocheiro de verdade... Se ao menos vivesse...
Iona cala-se um pouco, depois continua:
— Assim é, mana eguinha... Não temos mais Kuzmá Ionitch... Foi-se desta para melhor... Pegou e morreu, à toa... Agora, imagina tu, por exemplo: tu tens um po­trinho, e tu és a mãe desse potrinho... E, de repente, ima­gina, esse mesmo potrinho se despacha desta para melhor... Dá pena ou não dá?
A eguazinha mastiga, escuta e esquenta com seu bafo as mãos do dono... Iona se deixa arrebatar e conta-lhe tudo...


sexta-feira, 30 de maio de 2014

MEIO, BASTANTE, MESMO, ANEXO, QUITE, MENOS, ALERTA, etc.: os casos especiais de concordância nominal

Olá, pessoal. Tudo bom? Hoje extraí todos os meus dentes do siso e, por isso, estou com bastante dor. Mesmo assim, senti-me animada para escrever algumas dicas práticas de Gramática Normativa para vocês. Vamos lá!

Sabemos que, quando o assunto é CONCORDÂNCIA NOMINAL, a regra geral é a que prescreve o seguinte: o(s) adjetivo(s) concorda(m), em gênero e em número, com o substantivo (núcleo do sintagma) a que se refere(m), como em:
Flores raras. => O adjetivo “raras” concorda, em gênero (feminino, no caso) e em número (plural) com o núcleo substantivo “flores” (palavra feminina, no plural).
Até aqui, tudo parece muito bom e muito simples, não é? Existem, no entanto, algumas situações um pouco mais complexas, como quando o mesmo adjetivo se refere a dois ou mais substantivos (ex.: “Tenho por vocês claro respeito e admiração”). Esse assunto poderá (e deverá!) ser abordado em outra postagem, haja vista a quantidade significativa de regrinhas para alguns casos semelhantes ao apresentado. Hoje vamos tratar, mais particularmente, das situações especiais de concordância nominal.


Concordância com MESMO, PRÓPRIO, JUNTO, INCLUSO, QUITE e ANEXO:
Todas essas palavrinhas, quando assumem a função de ADJETIVO, flexionam-se de acordo com o substantivo a que se referem. Dessa maneira:
- Ela MESMA fará o discurso amanhã.
- A PRÓPRIA Joana assumiu a culpa pelo atraso.
- As minhas filhas sempre vão JUNTAS para a escola.
- Todas as taxas já estão INCLUSAS.
- É evidente que, a partir de agora, todos nós estamos QUITES.
- Os arquivos seguem ANEXOS ao e-mail.

ATENÇÃO TRIPLA!!!
1) A palavra “ANEXO”, quando acompanhada da preposição “em”, torna-se invariável. Assim, “OS ARQUIVOS ESTÃO EM ANEXO” (no singular mesmo).
2) A palavra “MESMO”, quando assume o caráter de advérbio (= realmente), fica invariável. Dessa forma, “NÓS GOSTAMOS DE FRUTAS MESMO” (= realmente, de fato).
3) “JUNTO”, quando acompanhado de preposição antecedente (“de”, “a” ou “com”), fica invariável: “OS DOCUMENTOS SEGUEM JUNTO COM O / DO TERMO DE RESPONSABILIDADE”.


Concordância com MEIO e BASTANTE:
Quando essas palavras funcionam como adjetivos, concordam, em gênero e em número, com o núcleo substantivo:
a) O Pedro quis tomar apenas MEIA cerveja hoje (MEIA = METADE).
b) Eu tomei vários MEIOS cálices de vinho ontem (vários MEIOS = várias METADES).
c) Há BASTANTES pessoas no salão de shows.
d) Tinha BASTANTE gente prestando o concurso de ontem.

 Essas mesmas palavras, contudo, ficam invariáveis quando assumem o valor de advérbio:
a) Percebi que a primeira candidata estava MEIO nervosa na entrevista (MEIO = UM POUCO, UM TANTO).
Aqui, a palavra “meio”, por funcionar como advérbio, não concorda com o substantivo “candidata”.
b) Nós gostamos BASTANTE de estudar Língua Portuguesa (BASTANTE = MUITO).
Nesse caso, "bastante" contempla o sentido de intensidade em relação ao verbo “gostar”, ou seja, apresenta o mesmo funcionamento do advérbio intensificador “muito”.
Percebam que, quando essas palavras estiverem relacionadas ao substantivo, elas serão variáveis e, portanto, sofrerão flexão de acordo com o próprio núcleo substantivo a que se referirem. Quando estiverem relacionadas ao verbo, atribuindo intensidade a ele, deverão permanecer invariáveis, justamente por adquirirem status adverbial (conforme a própria expressão indicia, “[ad]vérbio” é o termo que se relaciona com o verbo).


CONCORDÂNCIA COM “ALERTA” E “MENOS”:
Essas palavras permanecem invariáveis; por isso, temos o seguinte:
a) Os soldados estão sempre ALERTA.
b) Na palestra deste ano, havia MENOS pessoas.
Galera, aproveito para destacar que, de acordo com a Gramática Tradicional, a palavra MENAS não deve ser utilizada nunca, ainda que se refira a um substantivo feminino.

 É só isso. Abraços. Bom final de semana!



sexta-feira, 23 de maio de 2014

Sinto UMA DÓ ou UM DÓ? As atribuições de gênero na Língua Portuguesa

Bom dia, pessoal! Tudo bem?
A dica de hoje é sobre o gênero do substantivo "dó". Vamos lá...
A palavra “dó”, na Língua Portuguesa, é classificada como um substantivo do gênero MASCULINO, que significa “sentimento de compaixão, de piedade ou de grande pesar”. Por essa razão, o mais adequado é dizer que “sinto UM DÓ danado quando vejo a Maria chorar”.
A grande maioria dos falantes do português, no entanto, atribui ao substantivo “dó” o gênero feminino e, assim, diz que “sente UMA dó [...]”. Possivelmente os falantes associem essa palavra ao termo “pena”, que é um substantivo feminino (“O Joaquim está com muita pena do Fernando”) e pode igualmente significar “compaixão”, “tristeza”.
Essa atribuição inadequada de gêneros ao substantivo também acontece com a palavra “alface”, que, por sua vez, é FEMININA (portanto, “A ALFACE”), mas que, na linguagem coloquial, é produzida como substantivo masculino (“o alface”) - talvez por influência da expressão “ (o) pé de alface”. 
*** Percebam que o termo DÓ, embora masculino, é percebido como feminino; ao contrário de ALFACE, que é feminino, mas ocorre como masculino!
De qualquer forma, é importante sabermos quais são as expressões ditadas pela Gramática Padrão. Não podemos fechar os olhos, contudo, para as mudanças que acontecem naturalmente na língua, graças à frequência de uso por parte dos falantes. No caso da palavra “dó”, como bem observa Bagno no livro Não é errado falar assim (2009, p. 146), verifica-se que

O uso de dó no feminino já aparece até em letras de música compostas por alguém como Arnaldo Antunes, que, além de músico, é também um poeta criativo, original, respeitado pela crítica como bom conhecedor e usuário da língua literária. É o caso, por exemplo, da bela ‘De mais ninguém’, parceria dele com Marisa Monte, cujos primeiros versos são:
Se ela me deixou,
A dor é minha só,
Não é de mais ninguém;
Aos outros eu devolvo a dó,
Eu tenho a minha dor.

De qualquer modo, saibamos que DÓ, ao contrário de ALFACE (peço desculpas pela falta de relação de sentido entre os termos!), é um substantivo masculino de acordo com as normas cultas da Língua Portuguesa. Se quisermos e precisarmos seguir os preceitos da Gramática Padrão, é necessário ter em mente a dica de hoje.

Abração.

terça-feira, 20 de maio de 2014

“HÁ” ou “A”?: noções de tempo

Olá, pessoal! Tudo bom?
Na escrita, as pessoas geralmente ficam confusas em relação ao emprego do verbo “há” (haver) ou da preposição “a” para a indicação de tempo. Uma dica simples para diferenciar o uso das duas formas é a seguinte: o verbo “HAVER” é utilizado com a noção de TEMPO DECORRIDO, ou seja, de tempo PASSADO, a partir do momento atual. A preposição “A”, em contrapartida, é utilizada para fazer referência a noções temporais FUTURAS, ou seja, que ainda acontecerão. Vejamos as diferenças:

HÁ/HAVIA (HAVER - verbo):
Estou sem comer chocolate HÁ quase dois anos.
Não vejo a Paula HÁ mais de cinco semanas.
Os irmãos não paravam de brigar HAVIA mais de quatro horas.

A (preposição):
Daqui A uma semana, será o casamento.
Estamos A poucos meses das próximas eleições.

Fácil, não é?
Abraços.

                 

sexta-feira, 16 de maio de 2014

MANIA DE EXPLICAÇÃO: definições mais simples para coisas complicadas da vida

Montagem com as páginas do livro (por JPadovani)


Para este fim de semana, que tal uma visão mais espontânea e menos complicada do mundo? O frescor do olhar de uma criança pode ajudar-nos a simplificar aquilo que nos parece tão difícil. 
No livro Mania de Explicação, de Adriana Falcão, são dadas diversas definições para inúmeras coisas (na maioria, sentimentos) que, muitas vezes, não conseguimos explicar de forma natural e autêntica. Por meio do olhar de uma menininha muito curiosa, a narrativa compõe um quadro bem humorado, simples e "redondinho", com definição para todas as complicações da vida. 
O que você diria, por exemplo, se lhe perguntassem o que é SOLIDÃO, AGONIA, ANSIEDADE, ORGULHO? Parece difícil, não é? Para a criança do livro, contudo, essas coisas todas podem ser explicadas de maneira muito direta:

- Solidão é uma ilha com saudade de barco.
- Agonia é quando o maestro de você se perde completamente.
- Ansiedade é quando faltam cinco minutos sempre para o que quer que seja.
- Orgulho é uma guarita entre você e o de frente.

E, assim, a menina constrói uma espécie de  "dicionário" com definições simples para as confusões do dia-a-dia. 
A obra em questão teve, em 2001, duas indicações para o Prêmio Jabuti e recebeu o Prêmio Ofélia Fontes, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.

Gostou? Dá vontade de ler o livro inteiro, né?
Abraços.

terça-feira, 13 de maio de 2014

ESTAR GANHO & TER GANHADO: ele pensou que tivesse GANHADO na loteria...

Olá, galera! Tudo bem?
Antes de começarmos o assunto desta postagem, precisamos saber o que é particípio. Resumidamente, PARTICÍPIO é uma das formas nominais do verbo, assim como o infinitivo e o gerúndio. Além de apresentarem valor verbal, essas formas também podem desempenhar função de nomes; por essa razão, são chamadas de formas nominais. O particípio (termina em –ado ou em –ido), por exemplo, pode valer por um adjetivo (homem sabido). É imprescindível saber, ainda, que o particípio exprime, basicamente, a conclusão de uma ação verbal.
(*BECHARA, E. Moderna Gramática Portuguesa, 2006, p. 224.)

Muitos verbos apresentam como particípio a FORMA REGULAR terminada em “-ado” (primeira conjugação) ou “-ido” (segunda e terceira conjugações), como:
CANTAR (primeira conjugação): cantado.
CORRER (segunda conjugação): corrido.
PARTIR (terceira conjugação): partido.

Outros verbos, contudo, apresentam duas formas para o particípio: a regular (normal) e a irregular (reduzida). Esses verbos são chamados de abundantes.
ACEITAR: aceitado (particípio regular) e aceito (particípio irregular).
ACENDER: acendido (particípio regular) e aceso (particípio irregular).
IMPRIMIR: imprimido (particípio regular) e impresso (particípio irregular).

Se houver “abundância” (rsrs...), quando devo utilizar a forma regular e quando devo usar a outra? Muito bem... Basta prestar atenção nos verbos que antecedem o particípio em questão. Como eles geralmente formam locuções verbais, o verbo auxiliar será o grande responsável pela determinação do tipo do particípio. Dessa forma, se o auxiliar for o verbo “TER” ou “HAVER”, o particípio será REGULAR; se os auxiliar for “SER” ou “ESTAR”, o particípio ficará na forma reduzida (irregular, portanto).

Sabe aquelas expressões cotidianamente utilizadas por todos nós, como “eu já tinha pago [...]” ou “ele havia ganho muitos prêmios [...]”? Pois é, pessoal... O mais adequado é dizer “eu já tinha PAGADO” e “ele havia GANHADO”. Tudo isso pelo fato de os verbos “pagar” e “ganhar” admitirem as duas formas do particípio e, também, por estarem ladeados pelos auxiliares “ter” e “haver”, o que determina o emprego do particípio regular. O uso das formas irregulares (ter pago, ter ganho, etc.), todavia, já está tão difundido na língua falada, que não mais pode ser taxado como ERRO, mas como uma tendência do falante à hipercorreção ou, ainda, como uma preferência dele pelas formas mais sintéticas (mais curtinhas).
É isso!
Abração.




sábado, 10 de maio de 2014

MAMÃES...

Feliz DIA DAS MÃES para aquelas que são as criaturas mais adoráveis e mais dignas de todo o amor do universo. 
Especialmente para a minha mãe, agora, gostaria de destacar o quanto eu a amo e o quanto sou grata a Deus por ter a companhia e o carinho dela.
Parabéns a todas as mamães! 
Um dia é pouquíssimo para homenageá-las.
Abaixo, acrescento a crônica de Rubem Braga dedicada ao Dias das Mães. 
Uma boa (e deliciosa) leitura a tod@s! 
Abraços.

MÃE
Rubem Braga

O menino e seu amiguinho brincavam nas primeiras espumas; o pai fumava um cigarro na praia, batendo papo com um amigo. E o mundo era inocente, na manhã de sol.
Foi então que chegou a Mãe (esta crônica é modesta contribuição ao Dia das Mães), muito elegante em seu short, e mais ainda em seu maiô. Trouxe óculos escuros, uma esteirinha para se esticar, óleo para a pele, revista para ler, pente para se pentear — e trouxe seu coração de Mãe que imediatamente se pôs aflito achando que o menino estava muito longe e o mar estava muito forte.
Depois de fingir três vezes não ouvir seu nome gritado pelo pai, o garoto saiu do mar resmungando, mas logo voltou a se interessar pela alegria da vida, batendo bola com o amigo. Então a Mãe começou a folhear a revista mundana — "que vestido horroroso o da Marieta neste coquetel" — "que presente de casamento vamos dar à Lúcia? tem de ser uma coisa boa" — e outros pequenos assuntos sociais foram aflorados numa conversa preguiçosa. Mas de repente:

— Cadê Joãozinho?

O outro menino, interpelado, informou que Joãozinho tinha ido em casa apanhar uma bola maior.

— Meu Deus, esse menino atravessando a rua sozinho! Vai lá, João, para atravessar com ele, pelo menos na volta!

O pai (fica em minúscula; o Dia é da Mãe) achou que não era preciso:

— O menino tem OITO anos, Maria!

— OITO anos, não, oito anos, uma criança. Se todo dia morre gente grande atropelada, que dirá um menino distraído como esse!

E erguendo-se olhava os carros que passavam, todos guiados por assassinos (em potencial) de seu filhinho.

— Bem, eu vou lá só para você não ficar assustada.

Talvez a sombra do medo tivesse ganho também o coração do pai; mas quando ele se levantou e calçou a alpercata para atravessar os vinte metros de areia fofa e escaldante que o separavam da calçada, o garoto apareceu correndo alegremente com uma bola vermelha na mão, e a paz voltou a reinar sobre a face da praia.
Agora o amigo do casal estava contando pequenos escândalos de uma festa a que fora na véspera, e o casal ouvia, muito interessado — "mas a Niquinha com o coronel? não é possível!" — quando a Mãe se ergueu de repente:

— E o Joãozinho?

Os três olharam em todas as direções, sem resultado. O marido, muito calmo — "deve estar por aí", a Mãe gradativamente nervosa — "mas por aí, onde?" — o amigo otimista, mas levemente apreensivo. Havia cinco ou seis meninos dentro da água, nenhum era o Joãozinho. Na areia havia outros. Um deles, de costas, cavava um buraco com as mãos, longe.

— Joãozinho!

O pai levantou-se, foi lá, não era. Mas conseguiu encontrar o amigo do filho e perguntou por ele.

— Não sei, eu estava catando conchas, ele estava catando comigo, depois ele sumiu.

A Mãe, que viera correndo, interpelou novamente o amigo do filho. "Mas sumiu como? para onde? entrou na água? não sabe? mas que menino pateta!" O garoto, com cara de bobo, e assustado com o interrogatório, se afastava, mas a Mãe foi segurá-lo pelo braço: "Mas diga, menino, ele entrou no mar? como é que você não viu, você não estava com ele? hein? ele entrou no mar?".

— Acho que entrou... ou então foi-se embora.

De pé, lábios trêmulos, a Mãe olhava para um lado e outro, apertando bem os olhos míopes para examinar todas as crianças em volta. Todos os meninos de oito anos se parecem na praia, com seus corpinhos queimados e suas cabecinhas castanhas. E como ela queria que cada um fosse seu filho, durante um segundo cada um daqueles meninos era o seu filho, exatamente ele, enfim — mas um gesto, um pequeno movimento de cabeça, e deixava de ser. Correu para um lado e outro. De súbito ficou parada olhando o mar, olhando com tanto ódio e medo (lembrava-se muito bem da história acontecida dois a três anos antes, um menino estava na praia com os pais, eles se distraíram um instante, o menino estava brincando no rasinho, o mar o levou, o corpinho só apareceu cinco dias depois, aqui nesta pr aia mesmo!) — deu um grito para as ondas e espumas — "Joãozinho!".
Banhistas distraídos foram interrogados — se viram algum menino entrando no mar — o pai e o amigo partiram para um lado e outro da praia, a Mãe ficou ali, trêmula, nada mais existia para ela, sua casa e família, o marido, os bailes, os Nunes, tudo era ridículo e odioso, toda essa gente estúpida na praia que não sabia de seu filho, todos eram culpados — "Joãozinho !" — ela mesma não tinha mais nome nem era mulher, era um bicho ferido, trêmulo, mas terrível, traído no mais essencial de seu ser, cheia de pânico e de ódio, capaz de tudo — "Joãozinho !" — ele apareceu bem perto, trazendo na mão um sorvete que fora comprar. Quase jogou longe o sorvete do menino com um tapa, mandou que ele ficasse sentado ali, se saísse um passo iria ver, ia apanhar muito, menino desgraçado!
O pai e o amigo voltaram a sentar, o menino riscava a areia com o dedo grande do pé, e quando sentiu que a tempestade estava passando fez o comentário em voz baixa, a cabeça curva, mas os olhos erguidos na direção dos pais:

— Mãe é chaaata...
 
Maio, 1953. 

Rubem Braga é considerado o melhor cronista brasileiro de todos os tempos.

Disponível em: <http://www.releituras.com/rubembraga_mae.asp>.