segunda-feira, 18 de agosto de 2014

A conjugação do verbo "pagar"

Infelizmente, esta é a conjugação que mais se ajusta ao nosso país.
Nem a Gramática pode negar...


Não resisti! Precisei compartilhar a imagem com vocês.
Beijos.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Cuidado com o "LHEÍSMO"!

Olá, galera!! Estava com saudade de vocês.

Primeiramente, desculpem-me por ter demorado quase um mês para republicar no ‘blog’. A vida anda muitíssimo corrida e, em função disso, não consigo escrever com a frequência que me agrada.
De qualquer modo, a chamada de atenção desta postagem vai para o uso dos pronomes pessoais do caso oblíquo.
Tenho notado que a grande maioria das pessoas troca o uso de um pronome equivalente a objeto direto por um correspondente a objeto indireto (e vice-versa). Como assim?
Na tentativa de “sofisticar” um pouco o discurso, alguns falantes/escreventes utilizam formas como “Abracei-lhe demoradamente”, “Mais tarde eu lhe vejo”, etc. Em busca de uma construção mais erudita, as pessoas cometem o chamado “lheísmo”, isto é, elas acabam utilizando o pronome “lhe” em situações não indicadas.
Quando usar o pronome “lhe” em circunstâncias apropriadas, então? Vamos lá!
Na Língua Portuguesa, pessoal, existem os chamados pronomes pessoais átonos do caso oblíquo, que são os que seguem:  me, te, se, nos, vos, o(s), a(s), lhe(s), se. Eu sei que a designação desses pronomes é um tanto complicada (para não dizer “chata”), mas eles não são um bicho-papão. 
Essas palavrinhas mencionadas podem substituir os complementos verbais (ou seja, o objeto direto e o indireto). A substituição, contudo, não pode ser aleatória. Dessa maneira, alguns desses pronomes apenas podem ocupar o lugar do objeto direto, ao passo que outros somente ocupam a posição do objeto indireto. Vou esquematizar o que acabei de explicar:

               

Diante do exposto, galera, o pronome “lhe” não deve ser empregado “a torto e a direito”. Só devemos utilizá-lo com verbos transitivos indiretos (aqueles que admitem a pergunta “a que[m]”, “de que[m]”). 
Por isso, as normas da Gramática Tradicional priorizam o uso de “Eu lhe obedeço sempre”, já que o verbo “obedecer” é transitivo indireto (= Eu obedeço aos meus pais sempre). Aproveitando o exemplo que dei um pouco acima, o mais adequado não é “abraçar-lhe”, mas “abraçá-lo” ou “abraçá-la”, uma vez que “abraçar” é transitivo direto (Abracei-o demoradamente = Abracei o meu irmão demoradamente). Os únicos pronomes oblíquos átonos que podem ser usados tanto com transitivos diretos quanto com indiretos são “me”, “te”, “se”, “nos”, “vos”.
Outro probleminha bastante recorrente é o uso de “te” sem que o contexto exija a segunda pessoa do singular (TU). O pronome “te”, gente, é a forma oblíqua de “tu”; dessa maneira, somente deve ser utilizado em contextos de segunda pessoa:

Joaquim, tu podes fazer o favor de antecipar a entrega do arquivo? Se conseguires fazer isso, o diretor te bonificará em agradecimento.
* Ou “bonificar-te-á” (se você quiser “gastar” um pouquinho do seu conhecimento de colocação pronominal).

É isso! Tenham uma ótima noite. Qualquer dúvida, escrevam-me.

Grande abraço.


segunda-feira, 7 de julho de 2014

"A igreja do diabo", de Machado de Assis


CAPÍTULO PRIMEIRO
DE UMA IDÉIA MIRÍFICA 

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.

— Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.

Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a idéia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo: — Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.



CAPÍTULO II
ENTRE DEUS E O DIABO

Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que engrinaldavam o recém-chegado, detiveram-no logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os olhos no Senhor.

— Que me queres tu? perguntou este.

— Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do século e dos séculos.

— Explica-te.

— Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros...

— Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.

— Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não acuseis de dissimulação... Boa idéia, não vos parece?

— Vieste dizê-la, não legitimá-la, advertiu o Senhor.

— Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta de ouvir o aplauso dos mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal exigência... Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental.

— Vai.

— Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?

— Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há tanto da tua desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja?

O Diabo sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma idéia cruel no espírito, algum reparo picante no alforje de memória, qualquer coisa que, nesse breve instante da eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:

— Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa franja, e trazê-las todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda pura...

— Velho retórico! murmurou o Senhor.

— Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor, — a indiferença, ao menos, — com que esse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios que liberalmente espalha, — ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias à vida... Mas não quero parecer que me detenho em coisas miúdas; não falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda... Vou a negócios mais altos...

Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram no Senhor um olhar de súplica. Deus interrompeu o Diabo.

— Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os sinais vivos do tédio que lhes dás. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?

— Já vos disse que não.

— Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufrágio, ia salvar-se numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade. Nenhum público: a água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de algodão?

— Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega.

— Negas esta morte?

— Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los...

— Retórico e sutil! exclamou o Senhor. Vai; vai, funda a tua igreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens... Mas, vai! vai!

Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe silêncio; os serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus cânticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um raio, caiu na terra.



CAPÍTULO III
A BOA NOVA AOS HOMENS

Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas.

— Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil a airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...

Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras cínica e deslavada.

Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: "Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu"... O mesmo disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons versos do Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Luculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor intrínseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.

As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloquência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs.

Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar que era um monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no absurdo e no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrando assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente.

E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de outra espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum salário, pois equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma exceção foi logo eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o respeito em simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele.

Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos, ódio ou desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que a noção de próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regímen: "Leve a breca o próximo! Não há próximo!" A única hipótese em que ele permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra coisa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo. E como alguns discípulos achassem que uma tal explicação, por metafísica, escapava à compreensão das turbas, o Diabo recorreu a um apólogo: — Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas cada acionista não cuida realmente senão nos seus dividendos: é o que acontece aos adúlteros. Este apólogo foi incluído no livro da sabedoria.



CAPÍTULO IV
FRANJAS E FRANJAS

A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e vinham alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o tempo abençoou a instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo.

Um dia, porém, longos anos depois notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros.

A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de um droguista do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e, com o produto das drogas, socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de camelos, que tapava a cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à entrada de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia ali roubar o camelo de umdrogman; roubou-o, com efeito, à vista do Diabo e foi dá-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá. O manuscrito beneditino cita muitas outras descobertas extraordinárias, entre elas esta, que desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um calabrês, varão de cinqüenta anos, insigne falsificador de documentos, que possuía uma bela casa na campanha romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a meter-se na cama para não confessar que estava são. Pois esse homem, não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado a amizade de um cônego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa capela solitária; e, conquanto não lhe desvendasse nenhuma das suas ações secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se. O Diabo mal pôde crer tamanha aleivosia. Mas não havia duvidar; o caso era verdadeiro.

Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de refletir, comparar e concluir do espetáculo presente alguma coisa análoga ao passado. Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse:

— Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.

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Conto publicado na coletânea Histórias sem data, em 1884.



sexta-feira, 27 de junho de 2014

O elevador e "o mesmo": pode isso?

Olá, galera! Tudo bem?

Certamente, vocês já viram aquela famosa plaquinha presente nos edifícios: “Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar”.
Ok! Você já reconheceu a advertência, mas qual é a relação dela com a postagem de hoje?

Amigos, se vocês me permitirem dar uma dica de redação, não hesitarei em anunciar: EVITEM O USO DE “O MESMO / A MESMA” COMO PRONOME PESSOAL!!! Por quê? Como assim?
Na escrita – e, às vezes, na fala –, muitas pessoas utilizam a palavrinha “mesmo” com o objetivo de evitar a repetição de termos já usados na sentença. Por esse motivo, sempre encontramos por aí frases do tipo:
A professora precisou falar com os pais da garota, e os mesmos afirmaram não saber do incidente.

Percebam que não há necessidade alguma de empregar a expressão “OS MESMOS”, já que poderíamos substituí-la (tranquilamente!) pelo simples pronome “ELES”:
A professora precisou falar com os pais da garota, e ELES (os pais da garota, oras!) afirmaram não saber do incidente.

Utilizar o pronome em questão (“eles”) evita a repetição de “os pais da garota”, faz referência clara à expressão anterior (função anafórica do pronome em pauta) e resolve todo o problema da escrita. Não é preciso recorrer ao uso de “os mesmos”, até porque “MESMO” não funciona como pronome pessoal, minha gente! ISSO NÃO SIGNIFICA QUE NÃO DEVAMOS UTILIZAR A PALAVRA “MESMO” NUNCA MAIS. Quando poderemos empregá-la, então, meu Deus? Nos casos abaixo, por exemplo:

* Com valor de reforço (ênfase):
- Ele MESMO preferiu abrir o envelope. => equivale a “Ele PRÓPRIO resolveu...”.

* Com valor de adjetivo:
- Pai e filho têm os MESMOS hábitos. => eles têm gostos IGUAIS (ideia de IDENTIDADE e de IGUALDADE entre as coisas).

* Com valor de advérbio:
- Ela está com um novo namorado MESMO? => REALMENTE, DE FATO, DE VERDADE.

* Com valor de conjunção concessiva:
- MESMO QUE resolva ficar em casa, não se esqueça de me avisar => equivale a “AINDA QUE”.

* Com valor indicativo de limite (equivale ao uso de “ATÉ”):
- MESMO as pessoas que se diziam solidárias nunca mais apareceram para ajudar. => corresponde a “Até as pessoas que se diziam solidárias nunca mais apareceram para ajudar”.

* Com valor de “a mesma coisa”, em forma neutra:
- Ontem à noite, fiquei em casa e assisti a dois seriados. Pretendo fazer O MESMO hoje.

Tornando à advertência relacionada ao elevador, afirmo que, segundo os padrões tradicionais da língua, o aviso está escrito de maneira inadequada. Sim, pessoal! A lei em questão está escrita de modo inadequado. Quando vocês virem uma plaquinha semelhante, lembrem-se de que o uso de O MESMO / A MESMA não cabe para os casos de substituição de alguma palavra por pronome pessoal. Utilizem os pronomes pessoais ELE / ELA ou os relativos OS QUAIS / AS QUAIS.
Última dica: não é nada elegante escrever O MESMO / A MESMA nos casos como o do elevador. Nadinha mesmo! => [E ESSE ÚLTIMO "MESMO" É ADVÉRBIO.]

Abração. Até a próxima!


terça-feira, 17 de junho de 2014

Os óculos e o plural da língua...

Olá, caríssimos amigos.

O assunto desta postagem resume-se na palavra “ÓCULOS”. Sim, é isso mesmo!
Vocês já ouviram dizer que, segundo os padrões mais tradicionais da Língua Portuguesa, o termo “óculos” é uma palavra no plural? Por essa razão, devemos falar/escrever:

Os meus óculos novos são maravilhosos.
Perdi os meus óculos.
Os óculos do Pedro ficaram dentro do carro.

Isso tudo parece muito estranho? A explicação para o fato remete a um fenômeno morfológico designado “PLURALIA TANTUM”. Segundo o dicionário Houaiss, “‘pluralia tantum’ é uma expressão latina com que são referidos os substantivos de uma língua cuja forma é um plural morfológico, mas que semanticamente podem denotar uma única unidade”. Resumidamente, pessoal, a expressão latina ‘pluralia tantum’ significa “apenas plurais”. Na Língua Portuguesa, existe uma série de substantivos que somente ocorrem no plural, como núpcias, férias, pêsames, parabéns, ÓCULOS, etc.
Acontece que, em se tratando do USO linguístico, é evidente que as pessoas percebem a palavra “óculos” como um termo no singular, haja vista o fato de a palavra fazer referência a um único objeto. Quando falamos “óculos”, geralmente fazemos menção a uma coisa só, a uma unidade apenas, não é mesmo? Por que, então, precisamos utilizar o plural?
De acordo com as normas da Gramática Tradicional, o termo “óculos” faz referência, na verdade, a UM PAR DE LENTES. Dessa forma, temos um objeto constituído de duas partes simetricamente duplicadas. Seguindo esse raciocínio, podemos enquadrar, também, as palavras “calças”, “cuecas” e “tesouras”. É isso mesmo! Na realidade, gente, esses termos todos que eu mencionei também integram o grupo do "PLURALIA TANTUM". A frequência de uso de tais palavras no SINGULAR, entretanto, já fez com que a forma plural fosse quase esquecida pelos falantes. Reparem, contudo, que é mais complicado dizer “óculo” em vez de “óculos”; até mesmo porque, se assim fizermos, vamos mudar o sentido da palavra, já que “óculo” (sem a marcação do “-s”) significa LUNETA, e não aquele nosso velho conhecido usado para nos auxiliar na leitura.
Pessoal, outra coisa que eu gostaria de destacar é a seguinte: o termo “óculos” é uma forma no plural não apenas por terminar em “-s”, mas principalmente por pertencer ao mencionado grupo do “PLURALIA TANTUM”. Se todas as palavras terminadas em “-s” estivessem no plural, não poderíamos dizer “O ÔNIBUS” e “O LÁPIS”, não é? Ah! “Ônibus” e “lápis” são palavras cujo número (singular/plural) somente pode ser definido pelos seus determinantes (artigos, adjetivos, etc.), uma vez que a palavra em si permanece a mesma nos dois casos (o ônibus / os ônibus).

Para finalizar, aconselho todos a saberem que a palavra "óculos" está no plural e que, por isso mesmo, precisamos dizer/escrever "OS MEUS ÓCULOS SÃO GRANDES" caso alguém resolva avaliar o nosso nível gramatical (provas de concursos e de vestibulares, por exemplo). Se estivermos em uma situação informal, todavia, não vejo problema em utilizar o termo no singular; afinal, estamos falando de um único objeto. A língua é assim mesmo: está em constante movimento e em frequente mudança. Penso que chegará o dia em que o termo "óculos" somente será utilizado no singular. Quem sabe?

UMA CURIOSIDADE: em inglês, a palavra “óculos” (GLASSES) também é escrita no plural, minha gente! Também o são os termos “tesouras” (SCISSORS) e “calças” (TROUSERS ou PANTS).

Abraços. Até a próxima!


quinta-feira, 12 de junho de 2014

"EM VEZ DE" ou "AO INVÉS DE"? E agora?

Olá, galera! Tudo bem? Espero que sim.

Nesta postagem, vamos saber quando empregar – segundo os padrões da língua culta – “ao invés de” e “em vez de”. Vocês acham que tais expressões são sinônimas e podem sempre ser trocadas, sem prejuízo de sentido? Devo dizer-lhes que “DEPENDE”. 


  • “Ao invés de” deve ser utilizado SOMENTE para marcar OPOSIÇÃO entre duas situações, uma vez que o termo “invés” significa inverso, oposto. Dessa forma, podemos afirmar que a expressão “ao invés de” equivale à perífrase “ao contrário de”.

  • “Em vez de”, por seu turno, deve ser usado com o sentido de SUBSTITUIÇÃO (= “em lugar de”) e, também, com a noção de OPOSIÇÃO. Consequentemente, podemos concluir que, quando quisermos expressar oposição, teremos a opção de utilizar “ao invés de” ou “em vez de”, mas, se quisermos expressar somente a noção de SUBSTITUIÇÃO, teremos de optar pelo uso de “em vez de”.

Esquematicamente,
 IDEIA DE OPOSIÇÃO: 
As duas expressões podem ser usadas, mas é mais aconselhado o emprego de “ao invés de”.
Ex.:
Marina, ao invés de RIR da situação, CAIU NO CHORO.
=
Gabriela, em vez de RIR da situação, CAIU NO CHORO.

IDEIA DE SUBSTITUIÇÃO: 
Apenas “EM VEZ DE” (não tem jeito!).
Ex.:
“Em vez de fazer compras para a mãe, preferiu continuar jogando futebol.”
Percebam que fazer compras para a mãe e jogar futebol NÃO SÃO ideias contrárias e realmente opostas, né?


Gostaram? Simples!
Aproveito para desejar-lhes um FELIZ DIA DOS NAMORADOS e uma ótima abertura da COPA DO MUNDO. Beijem muito. 
Que o dia de hoje seja doce!

Até a próxima!

quinta-feira, 5 de junho de 2014

"ANGÚSTIA": um conto russo

Olá, pessoal. Tudo bom?

Trago-lhes hoje um belíssimo conto escrito por Anton Tchekhov (1860-1904), um dos maiores novelistas russos de todos os tempos. O texto abaixo destaca a solidão e a angústia de um homem que precisa desabafar sobre a morte recente do filho, mas que não encontra nenhuma pessoa que o queira ouvir. História triste, melancólica, angustiante, mas muito realista. Com toda a certeza, vale a pena conferir a leitura deste clássico. Se você ainda não leu nenhum conto russo, aqui está uma excelente oportunidade de iniciar os trabalhos...
Até a próxima!

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ANGÚSTIA


“Com quem a dor partilharei?...”
Anton Tchekhov

Anoitece. A neve graúda e úmida gira preguiçosamente ao redor dos lampiões recém-acesos e deita-se em placas ma­cias e finas nos telhados, nos lombos dos cavalos, nos om­bros, nos gorros. O cocheiro Iona Potápov está todo branco, como um fantasma. Está sentado na boleia, curvado, tão curvado quanto é possível curvar-se um corpo vivo, e não se mexe. Se toda uma avalancha se despencasse sobre ele, nem assim, ao que parece, ele acharia necessário sacudir a neve... A sua eguazinha também está branca e imóvel. Pela sua imobilidade, suas formas angulosas e as pernas retas como paus, até de perto ela parece um cavalinho de pão de mel de um copeque. Ao que tudo indica, ela está mergu­lhada em meditações. Quem foi arrancado do arado, das costumeiras paisagens cinzentas, e atirado aqui, neste atoleiro, cheio de luzes monstruosas, zoeira incessante e gente apressada, esse não pode deixar de meditar...
Iona e a sua eguazinha não se movem do lugar já faz muito tempo. Saíram do pátio ainda antes do almoço, porém não fizeram nem uma corrida. Mas eis que a sombra da noite desce sobre a cidade. A luz pálida dos lampiões cede lugar à cor viva e o bulício das ruas torna-se mais ruidoso.
— Cocheiro, para a Viborgskaia! — ouve Iona. — Cocheiro!
Iona estremece e, através dos cílios grudados pela neve, vê um militar de capote e capuz.
— Para Viborgskaia! — repete o militar. — Mas tu estás dormindo, hein? Para Viborgskaia!
Em sinal de assentimento, Iona puxa as rédeas, em consequência do que, placas de neve caem dos seus ombros e do ombro do cavalo. O militar toma assento no trenó. O cocheiro estala os lábios, estica o pescoço à maneira de um cisne, soergue-se e, mais por hábito que por necessidade, brande o chicote. A eguazinha também estica o pescoço, arqueia as pernas magras e, insegura, põe-se em movimento.
— Por onde te metes, lobisomem! — ouve Iona, assim que sai, gritar de dentro da massa escura que balança para diante e para trás. — Aonde te carrega o diabo? Para a direita!
“Não sabes dirigir! Aguenta a direita!”, ralha o militar.
Um cocheiro de carruagem particular pragueja ao cruzar, e um transeunte, que atravessara a rua correndo e batera com o ombro no focinho da égua, olha furioso e sa­code a neve da manga. Iona se contorce na boleia como se estivesse sentado em alfinetes, joga os cotovelos para os lados, e seus olhos correm como possessos, como se não compreendesse quem é e por que está ali.
— Como todos são canalhas! — zomba o militar. — Só procuram abalroar-te ou se jogar debaixo do teu cavalo! É que estão todos de conluio contra ti!
Iona olha para trás, para o passageiro, e move os lá­bios... Vê-se que quer dizer alguma coisa, mas da sua garganta não sai nada, a não ser um som gutural.
— O que é? pergunta o militar.
Iona torce a boca num sorriso, força a garganta e rouqueja:
— É que... patrão... coisa... o meu filho... se finou esta semana.
— Hum!... E de que foi que ele morreu?
Iona volta-se de corpo inteiro para o passageiro e diz:
— E quem sabe lá! Vai ver, foi a febre... Ficou três dias no hospital e se finou... É a vontade de Deus.
— Vira, demônio! — soa na escuridão. — Estás tonto ou o quê, cachorro velho? Toca para a frente!
O cocheiro torna a esticar o pescoço, a soerguer-se, brandindo o chicote com graça pesada. Depois, por várias vezes, ele se volta para o passageiro, mas este fechou os olhos, e pelo visto, não está disposto a escutar. Deixando-o na Viborgskaia, Iona para diante de um botequim, dobra-se na boleia e torna a ficar imóvel... De novo a neve úmida tinge de branco a ele e sua égua. Passa uma hora, outra...
Pelo passeio, pisando, pisando ruidosamente com as ga­lochas e altercando, passam três rapazes: dois deles são altos e magros, o terceiro é baixo e corcunda.
— Cocheiro, para a Ponte Policial! — grita o corcunda com voz de trêmulo. — Nós três — por vinte copeques!
Iona puxa as rédeas e estala os lábios. Vinte copeques não é o preço justo, mas ele não está para pensar em pre­ço... um rublo ou cinco copeques, para ele dá na mesma agora – haja passageiros... Os moços, aos empurrões e palavrões, vêm para o trenó e sobem no assento todos ao mesmo tempo. Começa a discussão do problema: quais os dois que irão sentados, e qual o terceiro que irá de pé? Após longos debates, bate-boca e acusações, eles chegam à decisão de que deve viajar de pé o corcunda, por ser o menor.
— Anda, toca! — range o corcunda, firmando-se e ba­fejando na nuca de Iona. 
— Descansa o cavalo! Mas que gorro o teu, hein, mano! Pior não se acha em toda Peters­burgo!...
— Eh, eh... eh, eh... — gargalha Iona. — É o que é...
— Anda, tu aí, “é o que é”, toca pra frente! É assim que vais andar o caminho inteiro? E que tal um pescoção?
— A cabeça me estala... — diz um dos compridos. Ontem, na casa dos Dukmássov, nós dois, o Vaska e eu, limpamos quatro garrafas de conhaque.
— Não entendo por que mentir! — enfeza o outro comprido.
— Mentes que nem um animal!
— Que Deus me castigue se não é verdade.
— É tão verdade quanto um piolho tossir.
— Eh... eh... — ri Iona. — Que senhores alegres...
— Arre, que os diabos te carreguem!... — indigna-se o corcunda. 
— Vais andar, carcaça velha, ou não? Isso é maneira de dirigir? Chicote nela! Upa, diabo! Upa! Dá-lhe rijo!
Iona sente atrás das costas o corpo irrequieto e a vi­bração da voz do corcunda. Ouve os insultos que lhe são dirigidos, vê a gente, e o aperto da solidão pouco a pouco começa a afrouxar no seu peito. O corcunda continua a imprecar, até que engasga num palavrão de seis andares e desanda a tossir. Os dois compridos põem-se a conversar sobre uma certa Nadejda Petrovna. Iona olha para eles por cima do ombro. Escolhendo um momento propício, volta-se novamente e balbucia:
— E eu nesta semana... coisa... finou-se meu filho!
— Todos vamos nos finar... — suspira o corcunda, enxugando os lábios depois do acesso de tosse.
— Anda, toca, toca! Deus meu, palavra que não aguento mais viajar assim! Quando é que nós vamos chegar?
— Você poderia animá-lo um tiquinho — na nuca!
— Estás ouvindo, traste velho? Vou te encher de pes­coções! Se a gente começa a fazer cerimônia com a tua laia, acaba andando a pé! Estás ouvindo, Dragão Gorinitch? Ou não te importa o que dizemos?
E Iona ouve, mais do que sente, o ruído do pescoção.
— Eh, eh... — ri ele. — Que senhores alegres. Benza-os Deus!
— Cocheiro, és casado? — pergunta um dos com­pridos.
— Eu, é? Eh, eh... Alegres senhores! Eu agora só tenho uma mulher: a terra úmida... Eh, eh... oh, oh... A sepultura, é o que é!... O filho, esse morreu... e eu estou vivo... Coisa esquisita, a morte errou de porta... Em vez de vir me buscar, foi ao filho...
E Iona volta-se para contar como morreu seu filho, mas aí o corcunda suspira aliviado e declara que, graças a Deus, eles já chegaram, finalmente. Tendo recebido os vinte copeques, Iona fica longamente a olhar no encalço dos far­ristas, que desaparecem num portão escuro. Outra vez ele está só, e outra vez o silêncio cai sobre ele... A angústia, que amainara um pouco, surge de novo e oprime-lhe o peito com força maior ainda. Os olhos de Iona correm aflitos e martirizados pelas turbas que se agitam de ambos os lados da rua: não haveria no meio desses milhares de pessoas ao menos uma que quisesse ouvi-lo? Mas as turbas correm sem notá-lo, nem a ele, nem à sua angústia... Angústia enorme, que não conhece limites. Se estourasse o peito de Iona e a angústia se derramasse, ela inundaria, parece, o mundo inteiro — e, no entanto, ela é invisível. Ele conseguiu aninhar-se numa casca tão ínfima, que não se pode enxergá-la nem com lanterna à luz do sol...
Iona vê um zelador de prédio com um saco na mão e decide falar com ele.
— Mano, que horas serão? — pergunta ele.
— Passa das nove... E por que ficas parado aqui? Vai andando!
Iona afasta-se alguns passos, dobra o corpo e entrega-se à angústia... Dirigir-se aos homens ele já considera inútil. Mas não passam nem cinco minutos e ele se endireita, sacode a cabeça como se sentisse uma dor aguda e puxa as rédeas. Ele não aguenta mais.
“Para casa”, pensa ele. “Para casa!”
E a eguazinha, como que adivinhando-lhe o pensamen­to, põe-se a correr a trote miúdo. Cerca de hora e meia de­pois, Iona já está sentado junto a uma estufa grande e suja. Em cima da estufa, nos bancos, no chão, homens estão ron­cando. O ar está denso e abafado... Iona olha para os dorminhocos, coça-se, e lamenta ter voltado para casa tão cedo.
“Não ganhei nem para a aveia”, pensa ele. “É por isso que estou aflito. Um homem que entende do seu trabalho... que está de barriga cheia, assim como o seu cavalo, esse está sempre sossegado...”
Num dos cantos, acorda um cocheiro moço, pigarreia e estende a mão para o balde de água.
— Deu vontade de beber? — pergunta Iona.
— De beber, pelo visto!
— Pois é... Bom proveito.. Pois eu, mano... morreu meu filho... Soube? Esta semana, no hospital... Que história!
Iona olha para ver o efeito que produziram suas pala­vras, mas não vê nada. O moço puxou a coberta por cima da cabeça e já dorme. O velho suspira e se coça. Assim como o moço tinha vontade de beber, ele tem vontade de falar. Logo vai fazer uma semana que o filho morreu, e ele ainda não conversou direito com ninguém... É preciso conversar com vagar, com calma... É preciso contar como o filho ficou doente, como sofreu, o que disse antes de morrer, como morreu. É preciso descrever o enterro e a viagem ao hospi­tal para buscar a roupa do defunto. Na aldeia ficou uma filha, Aníssia... Também dela é preciso falar... Há tanta coisa de que ele poderia falar agora... O ouvinte deve ge­mer, suspirar, compadecer-se... Melhor ainda seria falar com mulheres. Elas podem ser burras, mas põem-se a cho­rar à segunda palavra.
“Vou ver o cavalo”, pensa Iona. “Sempre terei tempo para dormir... Dormirei até que chegue...”
Iona se veste e vai para a cavalariça, onde está a sua égua. Ele pensa na aveia, na palha, no tempo... No filho, quando está sozinho, ele não consegue pensar. Falar com alguém a respeito do filho, isso ele poderia, mas pensar so­zinho e imaginá-lo é para ele insuportável e assustador...
— Mastigas? — pergunta Iona ao seu cavalo, vendo-lhe os olhos brilhantes. – Mastiga, anda, mastiga... Se não ganhamos para a aveia, comeremos palha... Pois é... Já estou velho para este trabalho... O filho é que devia trabalhar, e não eu... Aquele sim é que era cocheiro de verdade... Se ao menos vivesse...
Iona cala-se um pouco, depois continua:
— Assim é, mana eguinha... Não temos mais Kuzmá Ionitch... Foi-se desta para melhor... Pegou e morreu, à toa... Agora, imagina tu, por exemplo: tu tens um po­trinho, e tu és a mãe desse potrinho... E, de repente, ima­gina, esse mesmo potrinho se despacha desta para melhor... Dá pena ou não dá?
A eguazinha mastiga, escuta e esquenta com seu bafo as mãos do dono... Iona se deixa arrebatar e conta-lhe tudo...